A história do plástico

Por Elias Augusto F. Soares

Para falarmos sobre os materiais plásticos é interessante sabermos primeiro a sua história, como surgiu e como foi inventado. A maior conclusão a qual se pode chegar é que inegavelmente, desde seu surgimento, os plásticos revolucionaram o modo em que vivemos e como vivemos. A seguir, você acompanhará uma linha cronológica dos principais acontecimentos e inventos relacionados aos polímeros no decorrer da história.

Importante ressaltar que as datas foram consultadas em diversas fontes de pesquisa e aparecem neste levantamento por uma média de aparições. Por conta do tema, esse material está em constante construção e edição. Assista o vídeo e saiba mais:

A História do Plástico | UP – Universo Plástico (2019)

Desde muito tempo os polímeros estão presentes no planeta de forma natural como nas plantas, animais e árvores. Na antiguidade, há mais de 3.000 anos, no antigo Egito ou na Roma antiga, por exemplo, já se utilizavam esses materiais para carimbar ou selar documentos e vasilhames. Mas há registros de que o ser humano passou a usá-lo a favor de si (ainda sem muito embasamento científico sobre suas propriedades) por volta de 1.000 a.C.

  • 1.000 a.C. | Faz muito tempo. Nessa época, os chineses descobriram um tipo de material extraído de árvores que usavam como verniz para dar um revestimento impermeável e durável aos seus objetos. Era um polímero natural.

  • 79 a.C. | Por volta dessa data houve a descoberta do âmbar, uma resina termoplástica proveniente de árvores fossilizadas, muito encontrada na região do Mar Báltico, que permitia a fabricação de pequenas peças moldadas por compressão.

  • Ano zero | No ano zero foi descoberto o uso do cifre como material moldável (polímero natural). Algumas culturas cortavam lâminas dos chifres e os moldavam depois de aquecer com água quente para fazer botões, tigelas e pentes.

  • 800 | Em 800, foi desvendada a gutta-percha, uma resina natural presente na casca de árvores da Malásia.

  • 1596 | Saltando no tempo para 1596. Um mercador e explorador neerlandês relata usos da goma laca, uma resina secretada por insetos, após uma visita à Índia.

  • 1770 | É atribuído o nome de rubber à borracha (inspirado no termo em inglês “to rub”, que significa “esfregar/friccionar/limpar”) uma vez que ela conseguia remover marcas feitas no papel.

  • Charles Goodyear descobre o processo de vulcanização
    (Fonte: The Goodyear Tire & Rubber Company, 2020).

    1839 | Em 1839 Charles Goodyear (sim, o da marca de pneus) passou a usar enxofre em suas experiências com borracha natural que era proveniente daqui, do Brasil. Foi então que depois de mexer em uma formulação um dos pedaços da mistura caiu sobre uma chapa quente de um fogão. Quando resolveu limpar a bagunça, encontrou um produto diferente. Depois de descartar a parte carbonizada e analisar o que havia sobrado notou um material bem mais elástico que o original e soube que havia descoberto uma substância nova. Foi assim que acidentalmente o Goodyear descobriu o processo de vulcanização (nome dado em honra a Vulcano, deus romano do fogo). Esse processo consistia na adição de enxofre à borracha natural e exposição ao calor, tornando-a mais forte e resiliente.

  • 1845 | Algum tempo depois, em 1845, o escocês Robert William Thompson inventa o pneu de borracha.

  • 1851 | No ano de 1851 foi patenteada e comercializa a ebonite, material produzido pela vulcanização da borracha usando excesso de enxofre. Esse material duro, escuro e brilhante foi usado por mais de 100 anos na fabricação de bolas de boliche e placas para uso dentário, que neste caso era feita com cor rosada. Foi o primeiro material termofixo usado comercialmente e que envolveu a modificação de um polímero natural.

  • 1862 | Mais de uma década depois, em 1862, o inglês Alexander Parkes desenvolve a Parkesina. Uma resina moldável a base de nitrato de celulose, que substituiria materiais como o marfim, casco de tartaruga, chifres e madeiras. Entretanto, era um material extremamente inflamável.

  • Bola de bilhar de Hyatt
    (Fonte: National Museum of American History, 2020)

    1869 | Pouco tempo depois, o americano John Wesley Hyatt, aprimora as pesquisas baseadas em celulose e vence uma competição para achar um material que substituísse o marfim das bolas de bilhar (um esporte tão popular na época que já ameaçava a população de elefantes). Ele desenvolveu e usou um novo material que também usava celulose, chamando-a de celuloide e ganhou cerca de 10 mil pelo feito.

  • 1876 | Mas os anos não se destacam apenas por fatos legais. Em 1876, sementes de seringueiras do Brasil foram contrabandeadas e mandadas à Ásia, onde deram origem a base mundial da indústria de borracha.

  • 1897 | O alemão Adolph Spitteler, descobre e patenteia resinas a base de caseína. Um material feito a partir de leite coalhado e processado com formaldeído. Seu nome comercial era galatita, que significa “pedra de leite”.

A Era dos plásticos

No começo do século XX, por volta de 1909, que as coisas começaram a ficar um pouco mais interessantes na história dos plásticos. A partir de então, os plásticos ficam mais parecidos como os conhecemos, sua ciência evolui e sua popularidade aumenta. Nascia aqui, a Era dos plásticos.

  • Leo Hendrick Baekeland (1863-1944)
    (Fonte: American Chemical Society, 1993).

    1909 | Nesse ano, o belga (que vivia nos EUA) Leo Hendrik Baekeland, desenvolve o polioxibenzimetilenglicolanidrido, uma resina pegajosa de cor âmbar que ele produziu em seu laboratório. Mais uma das suas grandes ideias foi não usar essa nomenclatura e patentear o material sob o nome de Baquelite (inspirado em seu nome). Assim surgiu o Baquelite, um marco na história dos materiais plásticos. Esse foi o primeiro plástico a ser criado inteiramente a partir de produtos químicos, ou seja, o primeiro polímero 100% sintético.

    “Eu estava tentando fazer algo bem duro, mas depois percebi que deveria fazer algo bem macio, que pudesse ser moldado em formatos diferentes. Foi assim que acabei fazendo o primeiro plástico.”

    Leo Hendrik Baekeland

    A partir daí a resina termofixa foi usada pra substituir materiais tradicionais como metais, madeira, marfim e até mesmo a ebonite, na fabricação de carcaças de rádios, telefones e diversos outros artigos elétricos. Esses objetos eram formados com a Baquelite por conta de suas propriedades como baixa densidade, alta resistência térmica e capacidade isolamento elétrico. Sem dúvida, foi um polímero que revolucionou a nossa história e a maneira em que usamos os materiais até hoje.

  • 1912 | Em 1912, o russo Ostromislensky patenteou um processo de polimerização para PVC, mas seu processo ainda era inviável. No mesmo ano, Fritz Klatte, patenteia um método para produção do monômero cloreto de vinila, mas que ainda teria que esperar até a década de 1930 para ser produzido em escala comercial.

  • Hermann Staudinger com modelo de molécula de polímero (Fonte: American Chemical Society, 1999).

    1920 | A década de 1920 marcou o início da chamada “Era de Ouro” nas descobertas sobre síntese de polímeros. Foi quando Hermann Staudinger, da Alemanha, começou a pesquisar sobre os mecanismos de polimerização de moléculas orgânicas, ou seja, método de obtenção dos polímeros. Nessa época, ele apresentou um trabalho em que considerava (ainda sem muitas provas) que esses materiais eram constituídos de longas cadeias moleculares e não por anéis de moléculas. Em 1922, ele mesmo sintetiza a borracha.

  • 1926 | Cerca de 6 a 8 anos depois início de seus estudos, a comunidade científica reconheceu que Staudinger estava certo e adotaram seus trabalhos de forma definitiva. Por meio de análises de raios-X, foi possível examinar a estrutura interna de alguns polímeros que forneceu as evidências sobre as moléculas. Por seu trabalho na área de polímeros, Staudinger receberia o Prêmio Nobel de Química em 1953.

  • 1927 | Surgem o poli(cloreto de vinila) (PVC) e o poli(metacrilato de metila) (PMMA), mais conhecido como acrílico.

  • 1930 | A década de 30 também teve alta relevância para o mundo do plástico. Nesse ano o poliestireno (PS) foi desenvolvido simultaneamente por duas empresas, uma na Alemanha e outra nos EUA.

  • 1931 | Um ano depois se deu início a produção de PVC na Alemanha e ao desenvolvimento do neoprene e da fórmica. Nessa mesma data, quase por acidente, dois cientistas acabam desenvolvendo uma pequena quantidade de polietileno (PE), após alguns experimentos com etileno.

  • 1933 | Mas foi em 1933 que foi descoberto de fato, por uma empresa inglesa, o processo de polimerização do polietileno (PE) um dos materiais mais utilizados. Hoje, juntando suas variações, o PE corresponde a mais de 30% dos plásticos usados no Brasil (dados da Associação Brasileira da Indústria do Plástico – Abiplast).

  • Wallace H. Carothers (Fonte: Science History Institute, 2020)

    1934 | No ano de 1934, Wallace Hume Carothers desenvolve a poliamida (PA) originalmente na forma de fibra.

    Esse material ficou mundialmente conhecido como Nylon® um dos polímeros sintéticos mais importantes da história. Até hoje o termo “nylon” ou “náilon” (já aportuguesado) é usado como sinônimo para descrever genericamente qualquer poliamida sintética.

  • 1935 – Em 1935, Carothers e a empresa em que trabalhava registram e patenteiam a poliamida. Além disso, iniciou-se também a produção de resinas baseadas em melamina.

  • 1937 | Ano marcado pelo desenvolvimento do poliuretano (PU) por mais um alemão, o Otto Bayer.

  • 1938 | Um ano depois, além de surgirem fibras de poliamida 66, o poli(tetrafluoretileno) (PTFE) foi descoberto (também por acidente) pelo norte-americano Roy Plunkett. O PTFE é fortemente conhecido como Teflon®.

  • 1941 | Em 41, o poli(tereftalato de etileno) mais conhecido como PET foi sintetizado pela primeira vez nos EUA por químicos que procuravam polímeros que pudessem ser usados ​​para fazer novas fibras têxteis.

  • 1946 | Uma montadora de automóveis utiliza, pela primeira vez, lentes de acrílico nas lanternas traseiras de seus veículos.

  • 1947 | Surgem as resinas epóxi e o primeiro circuito impresso.

  • 1948 | Surgimento do copolímero acrilonitrila-butadieno-estireno, o ABS.

  • 1951 | Desenvolvimento do processo para produção de espuma de poliestireno, o EPS, material que também ficou conhecido pelo seu nome comercial: Isopor®.

  • 1953 | Chegamos a 1953, mais uma data repleta de acontecimentos importantes. Foi nesse ano que Hermann Staudinger recebeu o Prêmio Nobel de Química pelos seus estudos sobre os polímeros apresentados em 1920.

    Giulio Natta (à esquerda) e Karl Ziegler (à direita)
    (Fonte: Chemistry World, Royal Society of Chemistry, 2013)

    Coincidentemente, no ano em que ele recebeu o prêmio, dois químicos iniciam uma pesquisa que rendeu a ambos o Nobel de Química 10 anos mais tarde. O alemão chamado Karl Ziegler e o italiano Giulio Natta desenvolveram, respectivamente, catalisadores de íons metálicos para promover a polimerização regular do polietileno (PE) e de polímeros isotáticos, como o polipropileno. A partir daí, iniciou-se a produção do polietileno de alta densidade (PEAD) e também do polipropileno (PP).

    Ainda nesse ano, uma empresa dos EUA produziu experimentalmente, cerca de 300 veículos com carroceria feita de resina poliéster reforçada com fibra de vidro. Além disso, ocorreu também o desenvolvimento do policarbonato (PC). Esse material, super transparente e à prova balas, foi inventado pelo Hermann Schnell, também da Alemanha, que novidade!

  • 1956 | Surge o polioximetileno (POM) mais conhecido como poliacetal, material utilizado para fabricação de engrenagem e zíper, por exemplo.

  • 1962 | Na década de 60 também aparecem vários novos polímeros principalmente os de engenharia. Em 62 surge a poliimida (PI).

  • 1964 | Em 1964 surge o poli(óxido de fenileno) (PPO).

  • Stephanie Kwolek (1923 – 2014)
    (Fonte: American Chemical Society, 1999).

    1965 | A pesquisadora Stephanie Kwolek, dos EUA, descobriu um material que revolucionaria a indústria, a poliamida aromática ou poliaramida.

    Uma fibra amarelada com elevada resistência à tração e elevadíssima resistência impactos, inclusive balísticos. Esse material que passou a ser reconhecido pelo nome de sua marca registrada: Kevlar®, é hoje muito usado em coletes à prova de balas, artigos têxteis como luvas térmicas, camada de roupa para bombeiros e equipamentos de segurança.

    Além disso, nesse mesmo ano começa a produção comercial de polissulfona (PSU) aplicado em dispositivos cirúrgicos e em artigos hospitalares.

  • 1968 | Em 1968, foi desenvolvido o processo de polimerização do polietileno linear de baixa densidade (PELBD), uma vertente do PE.

  • 1970 | Desenvolvimento do poli(tereftalato de butileno) o PBT, um “primo” do PET. Foi nos anos 1970 que começaram testes de mercado usando garrafas de plástico transparentes. Após a proibição de alguns materiais e o desenvolvimento do processo de sopro feito nesse ano, o PET passou a ser aplicado nesses produtos até o final dessa década.

  • 1972 | Surge o poli(étersulfona) (PESU), na Inglaterra.

  • 1976 | Por volta de 1976 as primeiras garrafas de PET para refrigerantes são produzidas em escala comercial nos EUA.

  • 1977 | É sintetizado pela primeira vez o poli(éterétercetona) (PEEK). Um material biocompatível empregado em próteses ósseas.

  • 1980 | Durante a década de 1980, surgem polímeros como o poli(éterimida) (PEI) e o LCP, polímero de cristal líquido.

  • 1988 | Inventado nos EUA o sistema RIC (do inglês Resin Identification Codes, que significa Código de Identificação de Resina, em português) pela então Society of Plastics Industry, atual Plastic Industry Association.

  • 1990 | A partir de 1990 começa a era dos bioplásticos que são polímeros provenientes de fontes renováveis, e dos polímeros biodegradáveis, que são materiais que se decompõem pela ação de enzimas ou bactérias.

  • 1998 | Em 1998, começam a ser realizados estudos e experimentos em nanoescala nos polímeros.

    Equipe de formação da revista Plástico Industrial. Da esquerda para direita: H.C.O. Souza, A.A. Gorni e J.R. Gonçalves
    (Fonte: acervo Aranda Editora Técnica e Cultural, 1998).

    Além disso, é importante ressaltar que em setembro de 1998 é lançada no Brasil a revista Plástico Industrial, pela Aranda Editora, sob o comando da jornalista Hellen Corina de Oliveira e Souza, do engenheiro de materiais Antonio Augusto Gorni e do editor José Roberto Gonçalves.

    A revista Plástico Industrial é, até hoje, uma das melhores opções de leitura sobre esse tema, com edições mensais em formato impresso e digital, totalmente gratuita e, hoje, parceiro fundamental desse canal.

  • 2000 | A partir dos 2000 o desenvolvimento de novas resinas a partir do zero fica mais raro. A ênfase atual está na formulação de polímeros já existentes de forma a se obter materiais com propriedades melhoradas como, por exemplo, os materiais compósitos. Fica mais evidente também, a preocupação com a reciclagem dos polímeros que se torna assunto de máxima importância aos desenvolvedores.

A partir daqui os novos desenvolvimentos ainda são muito recentes para podermos catalogar sua história de fato. Mais um motivo para que fique atento às novidades do canal.

Um ponto interessante na história do plástico é que se trata de um material muito novo, se comparado ao uso dos metais e cerâmicas, haja vista que seu desenvolvimento aconteceu há pouco mais de 110 anos. É importante o conhecermos para entender a melhor forma de como produzir, utilizar e reaproveitá-los, porque daqui em diante somos nós que faremos desfecho dessa história.


Quer saber como referenciar esse conteúdo? Seguindo as normas da ABNT, o conteúdo desse site deve ser referenciado como: SOARES, E. A. F. A história do plástico. UP – Universo Plástico, São Bernardo do Campo, 17 maio 2020. Polímeros. Disponível em: [inserir url do link]. Acesso em: [inserir a data da pesquisa].

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